Caderno Teológico

Blog do Missionário Andrew Comings

Uma Ligeira Visita à Cabana

Uma tragédia terrivel, um encontro com Deus, e uma vida transformada. Este é o enredo de A Cabana, o livro que atualmente está sendo um dos mais vendidos—e mais lidos–do Brasil. Por mais impressionante que seja o sucesso do livro no Brasil, mais impressionante ainda é a sua trajetória ao sucesso mundial.

No início, o autor William P. Young nem pensou em publicar A Cabana. Tratava-se apenas de um presente para seus filhos e amigos, explicando a sua teologia e relacionamento com Deus. A sua família o convenceu a publicar o livro, e, depois de ser rejeitado por muitas editoras, ele formou sua própria empresa. Dali virou um best seller internacional.

Elogios do livro vêm de todo lado. O cantor evangélico Michael W. Smith diz “Se você tiver que escolher apenas um livro de ficção para ler este ano, leia A Cabana.” Mais impressionante ainda é a recomendação do teólogo Eugene Peterson, que na capa da versão em inglês, afirma que “este livro tem o potencial de fazer para nossa geração o que O Peregrino de John Bunyan fez para a dele. É tão bom assim!”

Será que estamos tratando aqui de um novo clássico da literatura cristã? Ou será que a popularidade do livro deve ao fato que reflete a filosofia pós-moderna dos dias de hoje?

Antes de examinar alguns trechos salientes do livro, vamos falar, resumidamente, do roteiro.

A Cabana é a história de Mackenzie (Mack), um homem que venceu um triste passado para criar uma família amorosa e aparentemente bem-sucedida. De repente ele sofre uma tragédia terrível—a sua filha mais nova é sequestrada, estrupada, e morta. Nem o corpo, nem o assassino são encontrados, mas a evidência achado numa cabana situada num monte remoto deixa claro o que aconteceu.

O mundo do Mack vira de cabeca para baixo. Ele tenta resolver as suas emoções por se só, mas tanto ele quanto a sua famíla sofrem. Um dia ele recebe uma carta misteriosa, convidando-o a comparaçer na cabana. A carta é assinada “Papai”, que ele entenda ser Deus.

Tomado por curiosidade, o Mack faz a dolorosa viajem até a cabana onde a sua filha fora morta. Alí ele encontra a Trindade: Deus Pai—na forma de uma mulher africana, Deus Filho—na forma de um homem judeu, e Deus Espírito—apresentada como uma mulher asiática que se chama Sarayu.

A maior parte do livro é dedicada à conversa entre Mack e essas três “pessoas”. Elas falam da existência do mal, o caráter e plano de Deus, e o relacionamento entre Deus e o homem.

Young escreve muito bem, e sabe mexer com as emoções do leitor. Mais de uma vez me encontrei com lágrimas ao ler certos trechos do livro. Infelizmente, creio que muitos leitores irão se deixar ser levados pelas emoções, ao ponto de ignorarem problemas sérios com a teologia apresentada no livro.

E não se engane, A Cabana é, acima de tudo, um livro de teologia. Pode ser ficção, a imaginação de um homem quanto à pessoa de Deus, mas nem por isso deixe de comunicar uma menságem teológica. Sendo assim, é preciso avaliar A Cabana como qualquer outra obra teológica.

Entre todos os problemas teológicos que existem no livro (e são muitos) quero destacar três que são, na minha opinião, fatais.

A Palavra de Deus

A versão em inglês—que foi a versão que li—contem a seguinte frase na página 67:

A voz de Deus fora reduzida a papel, e mesmo aquele papel precisava ser moderado e decifrado pelas autoridades apropriadas. (tradução minha)

Não sei porque essa frase não aparece na versão na lingua portuguesa (devia aparecer na página 59), porem ela demonstra a atitude do autor quanto as Sagradas Escrituras. São apenas uma representação imperfeita e seca da voz de Deus, e—o que é pior—são interpretadas por autoridades que querem impor controle.

Compare com o que a Bíblia diz a respeito de se mesma:

Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. (Hebreus 4:12)

Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça, (II Timóteo 3:16)

Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. (Mateus 5:18)

Outro trecho revelador encontra-se na página 185. Mack está conversando esta vez com Sarayu, e ela afirma:

Você pode me ver numa obra de arte, na música, no silêncio, nas pessoas, na Criação, mesmo na sua alegria e na sua tristeza. Minha capacidade de me comunicar é ilimitada, vivendo e transformando, e tudo isso sempre estará sintonizado com a bondade e o amor de Papai. E você irá me ouvir e me ver na Bíblia de modos novos. Simplesmente não procure regras e princípios. Procure o relacionamento: um modo de estar conosco.

Aqui Young coloca a revelação geral no mesmo nivel que a revelação especial. É claro que Deus se revela através da Criação, (Salmo 19) e é possível ver a sua graça comum nas obras de arte e música (Mateus 5:45). Porem a Bíblia é bem clara quanto a necessidade e natureza da revelação especial. (Romanos 10:17)

A implicação clara destes trechos—e outros espalhados através do livro—é que se alguem procura avaliar o que está sendo ensinado no livro ele está culpado de “reduzir a voz de Deus ao Papel” e “procruar regras e princípios”.

Aqui está um princípio bom para todo cristão lembrar quando confrontado com qualquer obra deste tipo: quando o autor tenta subestimar a Palavra de Deus, é porque sabe que seus ensinamentos não vão resistir a luz clara da Verdade.

tianastaciaA Pessoa de Deus

Uma área importantissima onde A Cabana não resiste essa “luz clara da verdade” é na sua apresentação da pessoa de Deus. Ausente é qualquer referência à sua majestade, sua grandeza, seu poder. Deus é uma “Tia Nastácia” celestial que só quer nos abraçar e consolar. Veja o momento em que Mack se contra com Deus Pai—ou seja, Papai:

Com uma velocidade supreendente para o seu tamanho, a mulher atravessou a distância entre os dois e o engolfou nos braços, levantando-o do chão e girando-o como se ele fosse uma criança pequena. E o tempo todo gritava o seu nome, Mackenzie Allen Phillips, com o ardor de alguém que reencontrasse um parente amado há muito perdido. Por fim colocou-o de volta no chão e, com as mãos nos ombros dele, empurrou-o para trás, como se quisesse vê-lo bem.

Isso tem algo a ver com os encontros com Deus que vemos na Bíblia? Isaías, por exemplo:

No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as orlas do seu manto enchiam o templo. Ao seu redor havia serafins; cada um tinha seis asas; com duas cobria o rosto, e com duas cobria os pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; a terra toda está cheia da sua glória. E as bases dos limiares moveram-se ã voz do que clamava, e a casa se enchia de fumaça. Então disse eu: Ai de mim! pois estou perdido; porque sou homem de lábios impuros, e habito no meio dum povo de impuros lábios; e os meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos.  (Isaias 6:1-5)

Moisés, os discípulos presentes na transfiguração, Paulo—todos tiverem reações de grande temor e tremor ao deparar-se com a glória de Deus. Esta reação está completamente ausente de A Cabana.

Outro ponto pertubador: o simples fato de apresentar dois terços da Trindade como mulheres indica a forte aversão que o autor tem a cerca de qualquer autoridade divina. Mesmo no final, quando Deus Pai aparece ao Mack como homem ele faz questão de colocar um rabo de cavalo. Deus, na sua forma mais masculino, é para Young pouco mais do que um hippie.

De fato, um dos sub-temas mais importantes do livro é o conceito de Pai. O autor apresenta em detalhes o abuso que Mack levou às mãos de seu pai, e a vingánça que tomou dele. Quando você ouvir o testemunho do próprio Young, tudo fica mais claro: isso tudo reflete os sentimentos que ele tem para com seu próprio pai. Mas em vez de apresentar uma visão bíblica e consoladora de Deus como “Pai dos órfãos”, ele apresenta Deus como Mãe…ou no máximo um Pai sem qualquer potência.

Assim, o Young não faz nenhum favor às milhares de pessoas que precisam desesperadamente saber como Deus pode ser um Pai para eles.

A Propiciação de Deus

Quem não tem um conceito correto quanto a pessoa de Deus dificilmente vai acertar na natureza de sua obra. Veja o seguinte trecho, mais uma vez na voz do “Papai”:

Não preciso castigar as pessoas pelos pecados. O pecado é o próprio castigo, pois devora as pessoas por dentro. Meu objetivo não é castigar. Minha alegria é curar. (página 109)

Veja como a visão de Deus como “bonzinho” (ou seja, boazinha) influencia a doutrina da salvação. Um “Deus de amor” certamente não ia castigar ninguem.

Deus é amor. A Bíblia afirma isso claramente. Deus tambem é justiça. A justiça de Deus exige que sua lei seja cumprida, e quem violar esta lei seja punido.

Pergunta: Como podemos reconciliar o amor de Deus para com a sua criação com a sua justiça?

Resposta: Jesus.

Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. (Romanos 5:8)

Veja bem: Na cruz de Cristo a justiça de Deus e o amor de Deus foram perfeitamente reconciliados. Se Deus não precisasse castigar o pecado, a morte de Cristo seria totalmente sem sentido.

E é aqui que temos—na minha opinião—o erro mais grave de A Cabana, pois isso atinge a própria natureza do evangelho. Young afirma no livro que a morte de Cristo serviu para Deus se reconciliar com os homens. Isso é verdade. Mas é apenas parte da verdade. A morte de Cristo serviu para afastar de nós a ira justa de um Deus santo. É isto que João afirma quando ele chama Jesus de nossa propiciação. (I João 2:2)

Visto o entendimento errado da natureza da morte de Cristo, não devemos ficar surpresos, então, que Young–em outras partes do livro–chega muito perto do universalismo (a ideia de que todos serão salvos).

Conclusão

Não quero deixar a impressão de que A Cabana não possua nenhuma coisa boa, ou que não fale nenhuma verdade. Young é capaz de falar eloquentemente de conceitos como honestidade com Deus, perdão, e outros aspectos da vida cristã. É difícil, porem, recomendar esse livro—principalmente a um incrédulo—sabendo que entre as verdades ele vai encontrar heresias altamente destrutivas.

De verdade, a única coisa que A Cabana tem a ver com O Peregrino é o número de palavras no título.

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3 Comentários»

  Robson Cunha wrote @

Parabéns pela análise Comings. O livro contém várias falhas teológicas sobre a revelação e sobre a Bíblia, sua apresentação de Deus, do Espírito Santo, da morte de Jesus Cristo e do significado da reconciliação, além da subversão de instituições que Deus ordenou, tais como o governo e a igreja local.

Realmente o livro não apresenta nenhuma orientação com relação ao crescimento espiritual. Ele não leva em consideração nem a Bíblia, nem a igreja institucional com suas ordenanças. Se alguém encontrar um relacionamento mais profundo com Deus que reflita a fidelidade bíblica, será a despeito de A Cabana e não por causa dela.

Um forte Abraço, na fé

Robson Cunha

  pastoralmir.blogspot.com wrote @

Muito elucidativa e necessária esta visita ao livro A Cabana. Uma das formas de Satanás nos enganar é através da própria religião, distorcendo o que Deus disse. Precisamos estar arraigados à Palavra escrita, ela é nosso alicerce.
“À Lei e ao Testemunho! se eles não falarem segundo esta palavra, nunca verão a alva.” Is 8.20
Há uma análise também no blog
http://verbumtestimonii.blogspot.com

  Ana Paula de Almeida Coiado wrote @

Sou leiga, e quero deixar aqui que o livro A Cabana não deve ser base para a fé de ninguem, mas ele tem o poder de ilustrar como é o relacionamento de Deus com o homem, ou como Deus vê o homem e sua miséria causada pelo pecado. A base da fé de qualquer pessoa deve ser na Palavra de Deus, a Bíblia, este deve ser o alicerce para a nossa vida.
Sou evangelica e quero dizer que concordo quando na história o autor se expressa dizendo que a igreja é uma organização humana e falha, o que hoje em dia é mais uma verdade do que uma mentira, porque não existe um lugar mais cheio de legalismo e pessoas que ditam um monte de regras que só serve para separar um grupo de pessoas ditas “santas” e não serve para mais nada, a não ser afastar aqueles que pretendem um dia vir para o “rol” evangelico.


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